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Conheça Ailton Guerra

  • Foto do escritor: MERCIA PASSOS
    MERCIA PASSOS
  • 4 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de abr.

Por Felipe Martins


Felipe: "Fale um pouco sobre você."


Ailton: "Olá, eu sou Ailton Guerra. Sou pedagogo de formação, pós-graduado em Psicopedagogia e, atualmente, venho fazendo meu mestrado em Movimentos Sociais, Cultura e Educação pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Fui baterista de uma banda chamada Matalanamão durante os anos 90 até o começo dos anos 2000. Fiz parte do movimento cultural do Alto José do Pinho, movimento que contribuiu muito com o Manguebeat. Vi de perto toda a evolução, toda a trajetória. Infelizmente, eu fui ao enterro do Chico — esse grande artista, o saudoso Chico Science.

Atualmente, sou um dos gestores do Memorial Chico Science. É uma honra, pra mim, poder estar contando, recontando e compartilhando essa história com os jovens, com as escolas, com os estudantes das universidades. É uma coisa que me deixa muito feliz e que levo comigo com muito carinho.

Infelizmente, hoje, como músico, pedagogo e alguém que vivenciou todo o movimento, não vejo mais a mesma cidade de 30 anos atrás. Claro, as coisas mudaram, o cenário é outro. Mas, mesmo assim, é importante que a gente não perca a nossa memória.

Durante a época do Manguebeat, nossa cidade teve uma grande oportunidade de sair da lama, de deixar essa imagem de cidade feia, desigual. Num dia de sol, Recife acordou com a mesma fedentina do dia anterior. Então, a gente precisa olhar mais pra nossa cidade — a nossa casa. Foi a casa de Chico.

De coração, desejo que as escolas possam trabalhar cada vez mais esse tema, que os professores possam se inteirar e repassar esse legado."


Felipe: "Como nasceu a banda Matalanamao?"


Ailton: "A banda Matalanamão foi uma das que fizeram parte do movimento cultural do Alto José do Pinho. Era um movimento que reunia em torno de 12 bandas. Era algo muito imaginário, porque ninguém podia imaginar que nós, em uma comunidade tão hostil, marcada pela violência — onde artistas eram alvo o tempo todo —, conseguiríamos fazer algo assim.

O Alto José do Pinho foi uma comunidade que contribuiu muito para o movimento Manguebeat, como já falei. E, dentro desse movimento, havia o Matalanamão. A banda surgiu como uma brincadeira. Sua origem está em outro trabalho, chamado Flores Negras. Pra você ter uma ideia de como tudo era tosco, louco mesmo: Flores Negras só gravou um disco e acabou. E disso nasceu o Matalanamão.

O símbolo da banda era um penico com uma flor negra dentro — estampado numa camisa enorme. A banda surgiu como a “décima segunda” do movimento, já que havia 11 outras. Era quase uma piada, mas também uma brincadeira de sobrevivência. A gente precisava de algo que nos atraísse, algo que fizesse sentido. Porque o resto era uma comunidade feia, violenta, dominada pelo tráfico. A gente vivia se desviando de bala, sabe?

Até que veio o reconhecimento. O Alto José do Pinho passou a ser visto como um lugar incrível, como dizia Canibal.

Na minha concepção, as bandas tinham que nascer pra gravar seis discos, produzir, escrever e sair em turnê. A gente não era associação de moradores, não era ONG pra cuidar da comunidade. Mas, infelizmente, toda aquela visibilidade, toda aquela riqueza, não contribuiu tanto com a comunidade em si.

Eu passei 25 anos no Matalanamão. Como disse, a banda surgiu de uma brincadeira. Quem ajudou a montar a banda foi outra banda: Devotos. Na época, havia muitas bandas, mas poucos bateristas — eles se dividiam entre várias formações. Chegou um momento em que os Devotos estavam fazendo muitas turnês, e Celo Brown me perguntou:

“Tu queres o Matalanamão?”

Parecia um brinquedo. Ele me deu baquetas e disse:

“Cuida disso como se fosse a tua vida.”

Aí eu peguei as baquetas. Já era baterista de um monte de banda punk. Entrei no Matalanamão e fiquei 25 anos.

Como falei, era tudo muito de brincadeira. As letras tinham um tom de sátira. Enquanto os Devotos falavam da violência cotidiana, a gente tirava onda com a realidade, satirizava tudo. E foi assim que o Matalanamão foi conquistando seu espaço.

Fui letrista da banda. A gente ensaiava lá no Sítio da Trindade. Era uma época muito difícil. Não tínhamos estúdio. Era tudo no estilo “faça você mesmo”. Pra você ter ideia, ensaiávamos com dois violões, cocada e água.

O Matalanamão foi uma banda muito importante para o movimento Manguebeat."


Felipe: "Na sua visão, o que o Manguebeat representa até hoje?"


Ailton: "Ah, cara… o Manguebeat representa uma cidade que teve a oportunidade de crescer. Representa revolução, representa resgate, memória, respeito, cidadania, preservação, né? Porque foi um movimento que não foi só de música. Foi um movimento que não veio das riquezas, nem da elite — veio das periferias.

Então é a nossa literatura, o nosso cinema, a nossa dança, a nossa moda, a nossa poesia. É Josué de Castro, é o pescador, são os caranguejos. Foi um movimento de vários movimentos.

E, como pedagogo hoje, eu fico muito feliz de, por exemplo, estar repassando isso pra tua escola, pra tua turma. Saber que — não todos, mas se um — se um estudante assimilar e levantar essa bandeira… eu já vou ficar muito feliz."


Felipe: "Como você chegou até o Memorial?"


Ailton: "Fui convidado por uma pessoa chamada Ricardo Melo. Ricardo já tinha sido meu chefe — foi secretário da Fundação de Cultura e também é escritor. Desde 2007, trabalhamos juntos numa escola chamada Kabum, que ficava no Recife Antigo.

Na época, eu trabalhava como bibliotecário num projeto chamado Releitura de Bibliotecas Comunitárias. Eram dez bibliotecas, e eu atuava no Poço da Panela, em Casa Forte.

Um dia, ele me ligou direto e perguntou:

“Ailton, quer mudar de emprego?”

Eu:

“Poxa…”

E ele:

“Olha, seu salário vai ser tanto. Você vai estar no Memorial Chico Science.”

Eles me convidaram muito pela identidade que eu carrego, por esse resgate que trago comigo, pela minha história com o movimento."


Felipe: "Qual seu sentimento de estar repassando a história de Chico Science para a geração de hoje?"


Ailton: "Cara, o sentimento é de realização total, sabe? Acho que, como falei pra tua turma ali… como um homem negro, pedagogo, numa sociedade tão difícil, não é fácil a gente trabalhar e lutar pela memória de alguém. Mas, ao mesmo tempo, é muito prazeroso — porque Chico não foi qualquer pessoa, né?

A irmã dele esteve aqui semana passada, e eu te confesso, Felipe: o que eu puder fazer pra valorizar a memória desse homem, eu vou fazer. Conheci a filha dele… a mãe dele, ainda não. Mas ela tem um memorial em casa, e eu acredito que nada disso foi por acaso. Nada é por acaso eu ter chegado aqui.

Meu sentimento é esse: de felicidade, de realização, de estar todos os dias trabalhando com educação a memória desse cara. A cultura por si só já é forte — mas eu estou fazendo disso um instrumento da educação. E eu acredito nisso.

Receber vocês aqui, contar e recontar essa história... pra mim, é uma realização. Ganhei meu dia. Vou sair muito satisfeito."



Ele também já atuou no cinema. Corfira no link abaixo:




 
 
 

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