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CADÊ ROGER? Entrevista com o produtor cultural Roger de Renor

  • Foto do escritor: MERCIA PASSOS
    MERCIA PASSOS
  • 7 de jun. de 2025
  • 10 min de leitura

Atualizado: 10 de jun. de 2025

Feito por: Grazielle Nívea


No dia 30 de abril de 2025 o produtor cultural Roger de Renor nos recebeu em sua residencia para um bate papo super descolado nos contando um pouco de sua carreira, da importância de uma comedoria estilizada para um movimento inovador

que crescia em Pernambuco, impactos no surgimento do manguebeat no olhar de quem esteve tão próximo de Chico Science e do manguebeat, da situação do Recife antes do movimento se repercutir, como as gestões lidam com a preservação da memória do movimento e do Chico Science.


Os Caranguejos do Capibaribe na casa de Roger.
Os Caranguejos do Capibaribe na casa de Roger.

INÍCIO DA CARREIRA COMO “AGITADOR CULTURAL”

Apesar do controle de escolhas de faculdades na época, Roger afirmou que “aprendeu com o que tinha”. Então, assim como ele, quem era classe média e conseguia custear uma faculdade, as opções eram poucas: Direito, Arquitetura, Odontologia, e, algo mais artístico seria o Jornalismo por causa da inflexibilidade da ditadura.

Ele entrou na produção artística com o objetivo de “não trabalhar”, pois não se identificava com o trabalho formal, e tinha vontade de criar algo. Como já azia parte de um grupo de capoeira na Universidade Católica, ele levou para vida a conquista Mestre Corisco, que conseguiu ser a primeira pessoa a se aposentar no ramo artístico (como capoeirista), e isso era fora de cogitação no momento de pós-ditadura. Essa influência reacendeu seu interesse em ramos de música, teatro e capoeira. Além disso, frequentava muito a praia para praticar  atividades que gostava, esse mix de influências resultou num pontapé para que ele abrisse um bar, A Soparia, que foi um projeto muito importante, onde ele conseguiu “reunir e articular pessoas” como tanto queria.

Trabalhou informalmente vendendo discos por 8 anos, e, depois de abrir o bar, ele conseguiu se reencontrar trabalhando com a música, criando uma relação e entendendo mais do jazz, chorinho e forro. O lugar que foi considerado um point para encontrar amigos e tomar cerveja, findou sendo uma referência cultural principalmente pela participação de Lula Cortês, e assim, ele foi construindo uma relação musical que trás até hoje e busca sempre por constantes atualizações.


FIM DA SOPARIA DEVIDO ÀS MODERNIZAÇÕES LOCAIS

“Isso é um ciclo, eu achava que já estava bom também, só tive pena pela forma, [...] Eu parei de me divertir no bar, era muita gente que eu não conhecia, e as pessoas não se interessavam na música que estava tocando, principalmente depois da morte de Chico”, afirmou. Diz que perdeu o controle, e que ocorreram diversas situações constrangedoras no ambiente, que estava passando a ser inseguro e desconfortável.


IMPACTO QUE O SURGIMENTO DO MANGUEBEAT TROUXE PRO RECIFE IMEDIATAMENTE E VALORIZAÇÃO CULTURAL NO RECIFE

“Uma Superinjeção’ de autoestima”, exclamou. O Manguebeat, em sua visão, “fez uma ligação através de uma trilha sonora e um conceito contundente na sociedade, principalmente com Josué de Castro”. E, sobre a valorização da cultura, passou a esconder a vergonha que os pernambucanos tinha de ter nascido no estado, um reconhecimento de admiração, muitas vezes excessivo, e muito orgulho.

Apesar dessa valorização, ele diz que “Investir milhões no Carnaval, não é você investir em fazer cultura, não é investir na cultura popular. Você fazer um grande cortejo durante o Carnaval e dizer que isso é cultura popular, não, isso não é cultura popular. Tem que ter outra história, tem que ter aula de cultura popular, aula nas escolas públicas com os mestres Patrimônio Vivo dentro das salas de aula. Entender isso desde pequeno, desde a recreação. Essas lutas são muitas!”, criticou o agitador quando citou a cultura e o Carnaval promovido no Recife. Apontou também a dificuldade de levar esse tipo de informação em forma de educação, pois sempre que vai falar de Caboclinho, Frevo, Maracatu e Capoeira precisa desvincular das origens, que, no caso, são os terreiros e das religiões indígenas. “Aplaudir tudo o que se faz de autoestima, tudo o que faz de ufanismo e aí se depara com coisas como essa”, completou.

Fala sobre a ignorância com o Nordeste, que era construída pelo preconceito e falta de informações. O movimento musical foi grande influência para trazer esse reconhecimento. Ele aponta a Rede Globo e os principais meios de comunicação como os principais propagadores de apropriação, ridicularização de costumes e sotaque para fazer grana. “Não precisa todo mundo rir e só uma pessoa ficar constrangida”, fala sobre a manipulação da maioria das propagandas de comunicação com humor ácido.


RELAÇÃO COM FRED ZERO QUATRO

O bar, depois dos shows, era a principal conexão entre eles e a maioria das situações aconteciam lá. Pois, sempre existia a conversação entre bebidas na celebração no final de cada espetáculo.


RELAÇÃO COM CHICO SCIENCE

“Chico foi muito rápido, né’? Foram dois anos e pouco, uma história meteórica. Ele ia muito lá no bar também. A relação com Chico foram alguns pontos, primeiro a da música, né’, porque como o bar foi inspirador pra ele, aquilo foi muito bacana pra mim. E, de certa forma quase que  traumático pra minha geração inteira, porque é como Oto brinca na música: “a gente tava’ distraídos pra morte”. A gente não imaginava nunca que depois de acontecer aquela virada toda, impossível de acontecer, a gente tá vendo o cara virar um fenômeno nacional e a sua cidade ser um centro de curiosidade e interesse pra música, finalmente. E... puff! O cara morre. Como? Isso é mentira, né’. Antes do carnaval, foi uma tragédia dramática.”, lamentou, acrescentando que eles dividiam quase sempre suas próximas canções e letras.

Chegou a enfatizar que até para a escolha de carro, ao conseguir dinheiro depois da turnê, seu amigo foi na mesma vibe e compra um carro do mesmo modelo. Enquanto o do agitador era mais ajeitadinho’, o de Chico tinha, propositalmente, uma estética de Brooklyn, e ele ficou exposto no espaço ciência por um tempo depois da morte dele e está guardado pela família.

“Então, minha ligação com Chico também era coisa do bar, mas também de ligações estéticas”, disse, mostrando uma foto de Chico numa tela na parede de sua cada, com fantasia que era influenciada pelo grupo Lambe-lambe.

Quando questionado sobre momentos mais particulares que teve com Chico, ele deixa claro que não teve oportunidade e nem tempo de poder serem realmente amigos: “A gente tava’ todo mundo muito um torcendo pelo outro, se conhecendo, se admirando. Era uma cidade que não tem a párea pra você pensar no tempo-espaço disso. [...] Não houve tempo pra a gente ser amigo, sabe? Eu costumo dizer uma coisa, que inclusive me emociona muito... é que hoje, eu só posso dizer fui amigo de Chico Science porque eu sou amigo da filha dele há mais tempo do que eu fui dele. Porque eu não convivi com Chico 3 anos, sabe? Foi uma coisa meteórica, a gente se encontrava na noite, no fim de noite, no começo de uma festa, dentro de uma festa.”. Após isso, ele entra em questões de fatores que, em sua opinião, considera-se um amigo pela continuidade de sua filha em sua história, e essa distância de amizade de dá exclusivamente por nunca terem marcado de sair, contar histórias, dizer o que está acontecendo, relações.

Com muito orgulho, menciona que soube de sua referência em uma das músicas em Olinda, numa das filiais da Soparia. “Roger, eu passei aqui pra te dizer que eu tô’ fazendo uma música que tem teu nome” e ele cantarolou a música lá. A parte é essa aqui “Cadê, Rogê? Cadê, Rogê?...” [...] Essa memória, essa lembrança, esse reconhecimento da cidade.”, incluindo a consideração que sentiu e algumas situações inusitadas que essa música provocou em sua vida.


CENÁRIO DO MANGUEBEAT APÓS O FALECIMENTO DE CHICO SCIENCE

“Eu acho que as coisas demoraram um tempão pra decantar, e o movimento mangue sofreu com isso, no sentido da perda, da morte. E acho que chamou atenção de como a gente pode se reinventar. A Nação Zumbi é um exemplo de uma banda, da força da música, do que é uma base de inspiração de música.[...] Mesmo que Chico não tivesse morrido, o movimento Mangue foi aquilo, então, ele tinha que acabar. Se tentou muito, de uma forma equivocada, continuar no “Ah, vamos continuar”, “A continuidade do movimento  Manguebeat”. Não, o movimento Manguebeat foram aquelas duas bandas que arrastaram mais um bocado pro movimento. Mas, a identidade era esse levante, que misturava um entendimento político-social da cidade, né’, com a música, que era uma música moderna, que olhava para suas origens, o maracatu, sem preconceito e sem folclorizar’ ”, apontou. E sobre seu entendimento de quem realmente integrou o Manguebeat na época foram as bandas Livre S/A, Nação Zumbi e algumas outras de Peixinhos. As demais bandas, agregaram-se ao movimento porque tinham o mesmo conceito, mas a continuidade não se voltava à batida e sim á diversidade. E ao colaborarem com o cenário de que viveram, se tornaram “Filhas” do movimento, em sua visão.

“Hoje eu tenho uma preocupação, e fico muito feliz com um movimento desses como o de vocês, dentro da escola pública, inclusive, claro, de que quando a gente falar de Chico, for falar do Manguebeat, falar de Josué de Castro, e das ideias de Josué de Castro, porque o livro foi reeditado agora, ano passado, ano retrasado. Imagina você não ter um negócio desses pra ler, e dentro de Pernambuco né’. Porque a gente tá’ preocupado com outras coisas, se vai ter a festa, quem vai tocar no palco, que vai ter Chico, faz o REC’n’Play, mas não se fala sobre o assunto, nem sobre Josué de Castro. Bota’ um caranguejo, bota’ até um holograma de Chico, que eu nunca vi um negócio mais dúbio do que aquele, se aquilo é bom, se não é. Botaram assim: “Louise vai tocar depois”. Perai, velho, “e tu sabe se eu quero ver meu pai aqui?” Pô’, imagina, é o pai da pessoa. Ela nem viu, um holograma do negócio. Isso é espiritismo daqueles de charlatão, que faz aqueles truques de teatro. [...] É com o brega funk, com o ocado do canal, são com as ideias sabe. Essa galera que firma a ideia. [...] A gente tem que ser bonito o tempo inteiro, e a gente não era. É ruim ter vergonha do cabelo, é ruim ter vergonha do sotaque.”, discursou, logo após mencionou a situação de que um indigente encontrou um lixo hospitalar no lixão, e come carne humana, situação que chegou a aparecer no New York Times. Depois da explosão do Mangue, o Recife passa a aparecer no mesmo para ser exaltado a cultura, a música e o país, e virou algo muito célebre.

Depois de uma fala sobre o resgate tão importante da memória de Josué de Castro, encaminhado por Chico Science, onde se relevou a importância de conhecer e de como aquilo deveria ser preservado, o agitador enfatiza que isso poderia ser ainda mais usado. “O sistema não se interessa, não tem tempo pra isso. Teve um ano de Chico, não sei se foi aniversário, que passou batido e a Prefeitura não comemorou. E no outro ano, a Prefeitura viu e fez uma homenagem a Chico Science, que foi quando teve o holograma e a Louise, filha de Chico, fez o show, e teve uma galera, Gilberto Gil cantou, participação de Céu. Onde é que tem na cabeça que quem vai fechar a noite é Raphaela Santos? O que tem haver a Raphaela Santos? Não passa por nada de merecimento, se Raphaela Santos é boa ou não, é unanimidade, ela é f***, mas por quê encerrando a noite em homenagem a Chico Science? Porque o gestor tá preocupado com a foto, simplificando, se vai ter realmente gente. E volta ao desconhecimento: “Rapaz, será que uma noite com Chico vai encher de gente? Porque vê, numa quinta feira a gente fazer um negócio e não estar topado’ de gente, aí o Carnaval vai começar um fiasco. Aí então vamos fazer uma coisa: chamar Raphaela Santos.” Não, tem Gilberto Gil. Tinha gente que estava lá desde 5 horas da tarde para ver Raphaela Santos, e enquanto Gil cantando ficava falando “quem é esse velho, ein, bicho? Esse velho não para de cantar, não?”. Então os próprios governos que se apresentam como progressistas, que põe o memorial Chico Science no Pátio de São Pedro e a melhor coisa que fizeram foi colocar Peste lá.” Falou sobre a restrição dos elementos no museu, principalmente para o turismo, e que o espaço é muito pequeno e tudo o que tem lá é de fácil acesso externo, nada de diferente. Complementando, o integrante de pesquisa , Rian, aponta a razoabilidade de tudo o que se tem sobre Chico, e esse desprezo que é ocupado para com ele pelas gestões do Recife, e como o memorial é menosprezado pela conveniência do poder. Louise, tem um acervo, e cuida da curadoria e conservação do pai, já o que se tem é totalmente superficial e deixado de mão.


RESSURGIMENTO DE BANDAS QUE TEM INFLUÊNCIAS DIRETAS DO MANGUE

Diz ser importante porque apesar da preservação capacitada e nenhum investimento para grandes movimentos voltados diretamente ao Mangue, essas bandas da nova geração podem trazer esses aspectos tão desconhecidos. Todas essas se denominam como influências do Mangue!


NEGLIGÊNCIA QUANTO A MEMÓRIA DE CHICO EM SUA CIDADE NATAL E NA CIDADE DO MOVIMENTO

“O que adianta o cantor ter uma música só lembrada no carnaval, mas de onde ele veio, é um morador qualquer? Enquanto Recife ardia ao caos, ele disse “Recife não é isso!”, é uma cidade bonita, uma cidade de cultura, um povo que tem cultura própria. E isso é um tipo de apagamento histórico e sua passagem ser efêmera”, Rian, do grupo de pesquisa, crítica, o esquecimento tanto na sua cidade natal, Olinda, quanto na cidade a qual idealizou e realizou a maior parte do movimento, Recife.


IMPORTÂNCIA DE GRUPOS DE PESQUISAS QUE FOQUEM EM ESTUDAR E BUSCAR MAIS DO MANGUE

Fala sobre o pouco acesso de informação do próprio memorial, e falta de tecnologia que permita um acesso facilitado às informações cruciais e mais exclusivas. Em comparação, ele cita que precisamos ter um Paço do Frevo de Chico Science, para que possamos nos sentir parte daquilo, próximos daquilo. Uma imersão.

“Vocês, fruto da tecnologia, 30 anos depois agora. Cada vez mais vão combater esses apagamentos, que existiam pelo Regime militar e depois pelos interesses políticos e econômicos.”


MAGO DE TARSO E RICO DO JANGA PARA O MOVIMENTO

“Eles fazem referências a Chico. Nós temos que munir eles, agora, vocês, munir daqui pra frente. Munir com esses projetos da sociologia, das monitorias pra ir além da música.”


SOM DA RURAL 

A ideia primeiramente era de ser “Zona Rural”, de remeter á Zona da Mata, mas por ser confundido com ‘zonar’, precisou ser modificado pela emissora.


SÉRIE “LAMA DOS DIAS”

Diz com muito orgulho que foi um prestígio participar de uma obra tão boa, e citou histórias de membros produção e suas relações com o movimento desde crianças.


MENSAGEM PARA NOVA GERAÇÃO QUE QUER SE APROPRIAR DO MANGUEBEAT, CONHECER E DISSEMINAR O MOVIMENTO

Experiências que a gente vai tendo, e de necessidade que diz “Pô’, se eu tivesse tido isso”. Então, a curadoria é uma coisa que tem que ser muito valorizada e que a gente tem que preservar e alimentar nosso senso crítico, sem medo de ser chato, entender e fazer a crítica. Não tem que entrar em treta de post de Instagram, isso é um conselho prático, assim: Vai no pessoal, nunca comenta. Se você quiser fazer uma crítica àquele negócio, você vai no pessoal da pessoa, no direct e comenta. E você pode construir com aquilo. E valorizar a curadoria, essa coisa que a gente tem, que vai ser muito difícil de achar na rua. Enquanto vocês estão na escola, enquanto vocês têm Mércia. Uma gama de curadoria que vai aparecer nessa escola que transcende os muros da escola, e se informem, sempre buscar informação. Porque música é bom, mas a música ela sempre tá querendo dizer outra coisa, sabe? A música de Chico é muito boa, mas ela é boa porque ela exatamente não é só a música. Se não só ia existir karaokê, tava tudo resolvido. [...] É ótimo música que transforma a gente, que consegue transformar. Quem foi pro combate contra o Fascismo e a Ditadura Militar foram os artistas, foi a poesia, foi a música que foi a comunicação. Comunicação, crítica, preservar e conservar nossa curadoria.”


Ele nos presenteou com o livro SOPARIA de José Teles.

 
 
 

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